Navegar é preciso; viver não é preciso

 

Ano Novo Astrológico

O ritmo natural

Por Patrícia Valente

A cada primeiro de janeiro, grande parte da população mundial comemora o início de mais um ano. Em termos econômicos e comerciais, marca o reinício de todas as atividades.

Muitos sabem que o ano civil tem aproximadamente 365 dias e ¼, o que acarreta um dia a mais a cada quatro anos, resultando no que chamamos de ano bissexto. Esse ¼ de dia corresponde a 5h48m45s. Visando à uniformização dos eventos religiosos, o Papa Gregório XIII, em 1582, fez uma reforma e criou o calendário gregoriano utilizado até hoje. Nele, a “sobra” de horas no ano foi arredondada para 6 (seis), gerando um acréscimo de 12 minutos ao ano. A defasagem é corrigida acrescentando-se um dia a cada quatro anos.

O que poucos sabem é que os minutos e os segundos variam durante o ano e de um ano para o outro por causa da interferência dos movimentos do Sol, da Lua e da própria Terra sobre si mesma. É por isso que a passagem do Sol pelo 0° (zero grau) de Áries varia de um ano para o outro, podendo ocorrer em 20 ou 21 de março. É quando temos o Equinócio da Primavera (Hemisfério Norte), em que dia e noite têm igual duração. O único outro momento em que tal evento se repete é no dia 21 de setembro, no Equinócio de Outono (HN).

Para iranianos e afegãos, o ano se inicia no exato momento do Equinócio da Primavera, também conhecido como Equinócio Vernal, tendo como coordenadas Teerã e Kabul. Assim, em seus calendários nunca acontecem anos bissextos. O calendário iraniano, também conhecido como calendário persa, é aquele de que se tem os mais antigos registros.

Iranianos e indianos partilham a mesma ancestralidade, derivam dos proto-indo-arianos, pastores das estepes do sudoeste da Rússia, à leste do rio Volga. Sua sociedade dividia-se em sacerdotes, guerreiros e pastores. Do quarto para o terceiro milênio A.C., os proto-indo-arianos, estabeleceram uma significativa tradição religiosa que influenciou seus descendentes: os Brâmanes da Índia e os Zoroastristas (ou Parses) do Irã. Ambas as religiões eram politeístas. Por volta de 3.000 A.C. esses dois grupos separaram-se e tornaram-se linguisticamente diferentes, os indianos e os iranianos.

Zoroastro ou Zaratustra viveu na Ásia Central onde hoje é a parte ocidental do Afeganistão e oriental do Irã. É difícil estabelecer em que período ele viveu, pois os registros sobre sua vida são raros e não há consenso a respeito das datas. Sabe-se, entretanto, que pertencia ao clã Spitama, era sacerdote do culto dedicado ao deus Ahura Mazda, foi casado duas vezes, teve vários filhos e morreu aos 67 anos assassinado por um sacerdote.

É por meio dos GATHAS, dezessete hinos poéticos compostos pelo próprio Zoroastro, que se pode conhecer um pouco da sua vida e pensamento religioso. Os Gathas são a parte principal do AVESTA, livro sagrado do zoroastrismo. Sua linguagem é muito semelhante à usada no Rig Veda dos indianos.

O zoroastrismo possui textos religiosos, rituais de casamento e maioridade, práticas funerais específicas e celebra várias festividades. Seus seis festivais anuais, os Gahanbars, têm sua origem nas diferentes atividades agrícolas dos antigos povos indo-arianos e nas estações do ano. A principal atividade é o NO-ROOZ, NORUZ, NOE-ROOZ, NAVROZ ou NOWROUZ, que significa ANO NOVO em persa, e é celebrado todo ano no exato dia do Equinócio da Primavera, 20 ou 21 de março.

Até hoje, muitos povos comemoram o início de seu ano nesta data, a saber: afegãos, iranianos, curdos, repúblicas da antiga União Soviética, Geórgia, Iraque, Síria, Turquia, Azerbaijão, Tajiquistão etc. Os Baha’i, religião derivada do zoroastrismo, também comemoram o Noruz.

A tradição do Noruz, segundo relatos, remonta a milhares de anos, por volta da última era glacial, e foi introduzida por um certo rei Jamshid. Nesse período, o homem histórico deixava a vida de caçador e começava a viver de maneira assentada, dando início à era agrícola. Por isso, as estações do ano eram fundamentais e, como tudo dependia delas, era preciso conhecê-las bem. Conhecer os ciclos da natureza e do céu significava sobreviver.

Os antigos precisavam de um “ponteiro” que lhe indicasse o início da primavera após o rigoroso e difícil inverno. Algumas estrelas que ocupavam um lugar específico no zodíaco no início da primavera encontravam-se em Áries. A estrela mais brilhante de Áries é Hamal que, em árabe, significa “A cabeça do carneiro”.

Primavera é tempo de renovação, renascimento e, portanto, celebração. Muitos povos antigos celebravam enfaticamente o início da primavera pela simples razão de poderem reabastecer seus suprimentos de alimentos muito em breve. A data é, inclusive, bastante representativa para o Cristianismo, que até hoje calcula o dia da Páscoa para cair no primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia após o Equinócio da Primavera.

Como se vê, a maneira mais adequada e natural para se calcular o Ano Novo é quando o Sol ingressa em Áries. O ciclo das estações é respeitado e não precisamos recorrer ao artifício do ano bissexto para “acertar o passo”.

Conheça algumas mentes brilhantes do mundo persa: Omar Khayyam (1044~1123 DC), astrônomo e matemático; Al Biruni (973~1043 DC), astrônomo, filósofo e matemático; Avicena (908~1037 DC), filósofo; Abu Ma’shar (787~886 DC), astrólogo. Parses ou zoroastristas do passado: Ciro, o Grande (580~529 AC); rei Dario da Pérsia; rei Xerxes (519~465 AC).

Parses da atualidade que celebram o Noruz: Zubin Mehta, renomado maestro indiano da Orquestra Filarmônica de Israel; Freddie Mercury, nascido Farrokh Bulsara e já falecido, vocalista do grupo inglês de rock Queen e Andre Agassi, conhecido tenista americano, filho de pai iraniano.

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